Conto : CONTRATO DE ECHO ( parte 1 )

 

Segue a primeira parte do novo conto Contrato de Echo, dentro a mesma ambientação de \"O Recebimento de Kara\".

 

 

Um estrondo alto seguido de uma chuva de lama veio do lado direto e ele escorregou para dentro de uma trincheira. Olhou por sobre a barreira e sua arma de assalto vomitou disparos de plasma derrubando três adversários distantes. Gritos incompreensíveis vinham de varias direções seguidos de sons de disparos e explosões diversos. Quando tentou correr, algo explodiu no seu lado e ele sentiu seu corpo girar no ar antes de cair no chão e rolar até atingir a lateral da trincheira.

Abriu os olhos lentamente. Tudo estava fora de foco. Um vulto a sua frente estava falando com ele. Sentia o corpo sendo agitado por uma mão que segurava na gola de seu uniforme.

- Oito? Oito, levanta!

- Seis? - Sua voz saiu com dificuldade, o vulto era apenas um borrão disforme.

- Levanta logo, porra !

Quando a visão voltou, havia um homem na frente dele, com um uniforme militar completamente sujo. Seu braço direito exposto tinha o numero seis tatuado, em seu braço esquerdo, uma letra E estilizada. Seis pegou a arma que estava no seu lado e quando ameaçou sair de trás da barreira, um laser de alta intensidade cruzou o ambiente, atingiu a lateral da cabeça dele e ela explodiu. O corpo sem vida tombou. Oito jogou o mesmo para o lado empurrando com o pé, em seguida passando a mão sobre o rosto para limpar o sangue sobre os olhos.

Não havia tempo para lamentar aquela morte.

Um grito veio de longe, ele a distancia, viu o numero dois gritando e apontando. Ao olhar para a direção indicada, um veiculo blindado estava avançando na sua direção. No topo um canhão virando para o seu lado. Instintivamente abaixou evitando uma sequencia de disparos de plasma, que aqueceram o ambiente e levantaram enormes quantidades de lama, estilhaçando tudo ao redor. Levou a mão para baixo e pegou uma granada sônica da lateral da perna.

Arremessou por sobre a cabeça. O pequeno cilindro cruzou o ar. Um estampido fora seguido por um deslocamento de ar abrupto e o veiculo parou. Um som veio do seu lado, quando uma bota atingiu sua arma desarmando-o em seguida. Ele puxou de uma bainha na perna uma faca com microfilamento de plasma e girou no ar atingindo um pescoço no caminho. Sangue jorrou e um corpo já sem vida tombou na lama.

Recuperou a arma, guardou a faca e saiu da trincheira correndo na direção do veiculo. Um zunido forte veio de cima e quando estava a poucos metros do blindado, um aeroplano apareceu na escuridão do céu noturno, desceu fazendo um arco e soltou um foguete.

O blindado explodiu, antes que pudesse fazer qualquer coisa.

Ele voou atingindo vários obstáculos desconhecidos e desmaiou.

 

Acordou na cama bagunçada em meio a uma quantidade grande de garrafas vazias. Empurrou varias para o lado e sentou-se. Pegou varias delas em sequencia, mas estavam todas completamente vazias. Sua cabeça parecia que estava recheada com chumbo. Levantou cambaleando e foi para o pequeno banheiro do condo. Abriu a torneira e jogou uma quantidade grande de água no rosto. Olhou para o espelho de cristal liquido altamente reflexivo e deparou-se com a visão de um homem, cheio de cicatrizes, cabelos brancos curtos em estilo militar. Seus olhos escuros estavam rodeados por olheiras permanentes. Em seus braços que estavam expostos na camiseta preta bem surrada, o numero oito e a letra E estilizada, igual a dos outros soldados de seu sonho.

- Droga... Preciso de um trago... - Murmurou para ele mesmo.

Ele saiu do banheiro.

- Lotte ? - Olhou ao redor. - LOTTE !? Aonde diacho ela está?

Andou pelos poucos cômodos do condo, mas não achou quem procurava.

Uma ideia percorreu o fundo de sua mente e ele sabia aonde ela estava. Pegou uma faca grande de um pequeno móvel ao lado de sua cama e colocou em uma bainha na sua perna.

Saiu pela porta sem se preocupar em fechar a mesma, desceu os dois andares pela escada e chegou ao térreo. Saiu pela porta da frente ignorando todos que estavam na rua e virou para a direita até alcançar a primeira esquina. Entrou em uma viela estreita e seguiu até chegar em uma porta de metal blindada com uma pequena abertura que estava fechada. Ele bateu com o punho esquerdo fechado na porta varias vezes.

- Já vou ! Já vou ! Mas que pressa é essa? - Uma voz veio de algum lugar atrás da porta. A pequena portinhola abriu escorregando. - Quem é o filho da pu... ? - Foi quando viu uma expressão furiosa, beirando a insanidade, olhando para seus olhos. – Ah não...

Antes que conseguisse fugir a porta caiu por sobre ele, após ser arrancada das dobradiças por um chute vindo de uma bota militar. O grande homem deu alguns passos e parou sobre a porta aumentando o peso sobre aquele homem pequeno que estava embaixo.

- Marco... Aonde ela está? - Os gritos embaixo da porta saiam abafados.

- Echo? AAAAArgh!!!! Quebrou minha porta de novo! Argh, sai de cima! Não consigo respiraaaaaa...

O homem chamado Echo saiu de cima da porta e a chutou para o lado, como se a mesma fosse sem peso. Ele pegou Marco pelo pescoço e o ergueu no ar. Por mais que Marco debatia-se, parecia que estava lutando contra as mãos de uma estátua. O oxigênio estava desaparecendo do cérebro de Marco e ele estava começando a desmaiar.

- Aonde ela está? Já lhe avisei sobre isso, idiota!

- Echo... Eu... Não consigo... - O corpo estava amolecendo e ficando inerte igual a uma boneca de pano.

Marco caiu no chão com as mãos no pescoço, puxando o ar desesperadamente. Arrastou-se até encostar na parede tossindo.

- Ela... Veio... - Tossiu. - Eu não fiz nada... Ela veio com aquele negócio de mente... Sei lá o que é aquilo.... Eu não...

A cabeça de Marco virou com o impacto de um chute lateral. O osso da mandíbula estalou e vários dentes foram cuspidos. Sangue jorrou.

- ONDE?!

Ele apontou com dificuldade para algum local alem de uma passagem em uma parede, depois tombou para o lado desacordado. Echo passou pelo aposento com poucos móveis, que indicava que fora uma sala de estar em um passado mais glorioso, hoje resumido ao que já foram paredes, iluminação precária e restos decrépitos de mobiliário. O local não inspirava higiene nem para os mais otimistas e uma porta destruída não melhorava o visual. O comodo seguinte não tinha melhores condições e estava cheio de pessoas caídas, algumas com a visão fixa em algum lugar indefinido murmurando coisas sem sentido, enquanto outras estavam inconscientes. Pareciam mais com zumbis do que com seres humanos, estavam espalhados por sofás diversos e muitos pelo chão. Echo vasculhou entre eles, empurrando alguns para o lado, mas não achou quem estava procurando. Estava começando a achar que havia sido enganado quando viu outra porta. Foi para a mesma passando por sobre os corpos caídos e quando abriu a porta viu um banheiro. Um forte cheiro tomou conta de suas narinas.

- Alguém deve ter morrido há muito tempo ali dentro. - Era a impressão dele.

O aspecto do banheiro é muito pior do que o do resto daquela residencia. Nada ali parecia funcionar a muitos anos, tudo estava tomado por sujeira, camadas e mais camadas de poeira e mofo. A iluminação era ruim e falhava intermitentemente. Ele entrou. Tinham restos de dermatrodos usados como estimulantes espalhados pelo chão. Fora neste momento que Echo notou que dermatrodos semelhantes estavam também espalhados no outro comodo, alguns estavam fixados nas cabeças, mas isso não havia lhe chamado a atenção antes, pois estava mais interessado em identificar quem ele estava procurando. Ele pegou um deles, havia um simbolo de um raio desenhado no mesmo.

Echo reconheceu como StiZ, um dermatrodo que quando conectado na cabeça dispara descargas elétricas em locais específicos, fazendo com que o cérebro responda gerando outro fluxo elétrico e causando um bombardeio de sensações na pessoa. Porem também causa possíveis efeitos colaterais, tais como desmaio, amnésia e alucinações.

Ele jogou o dermatrodo fora e empurrou cada uma das portas dos reservados, até encontrar a mulher que estava caída sentada encostada na parede. Ela tinha cabelos lisos longos completamente brancos, uma pele também branca, seus olhos entreabertos revelavam iris de cor violeta. Calçava botas longas até o joelho e vestia um short preto justo ao corpo, suspensórios pretos e uma camiseta amarela por baixo, que ia até o meio do corpo. Estava imunda e quase desacordada.

Echo abaixou a frente dela, arrancou o dermatrodo que estava em sua cabeça e puxou os braços dela em sua direção. O corpo inclinou-se para a frente caindo por sobre o ombro de Echo e ele a levantou do chão segurando suas pernas a frente.

Saiu do banheiro a carregando. Estava desviando das pessoas, quando uma saiu de trás de um sofá vindo na sua direção cambaleando.

- Saia do caminho... - Um chute fez com que ela rolasse até bater na parede a frente.

A mulher começou a sair do estado de letargia, quando reparou que estava vendo as costas de alguém. Estava zonza e com a sensação de que estava voando, apesar da posição estranha. Estava achando que era efeito do StiZ.

- Eeee... Echo? - Os braços pendurados balançavam junto com os cabelos, estava achando que conhecia aquelas costas de algum lugar.

- Lotte.

Uma tristeza tomou conta do corpo dela, quando percebeu o que estava acontecendo.

- Echo... Eu decepcionei você, né? Eu... Eu sou fraca... Não mereço... - As lágrimas desciam para a testa dela devido a posição que se encontrava.

- Cala a boca Lotte. - Ele disse seco.

- Echo, eu... Eu... Eu vou entender se... Se você me abandonar. Eu não mereço... Não mereço que se preocupe... Eu... Tinha prometido... Mas...

- Já falei para calar a boca Lotte, você está me dando dor de cabeça...

Ela ficou quieta com lágrimas no rosto o resto do caminho. Teve a impressão de ter visto Marco caído mas não tinha muita certeza. Quem passou pela rua fingiu que não reparou em um homem grande carregando uma mulher estranha no ombro. Naquela parte da cidade, todos sabem que é melhor cuidar de sua própria vida, se eles têm algum amor por ela.

Ele entrou no condo, fechando a porta com um chute fraco e foi em direção do banheiro. Arremessou Lotte dentro do box e acionou os botões, ela caiu sentada e sua cabeça bateu na parede, soltou um grito e colocou as mãos na nuca. O box fechou deslizando o vidro transparente e o mesmo mudou de cor ficando opaco, jatos saíram de varias direções formando uma nuvem de água.

- Podia pelo menos ter me deixado tirar a roupa! - Ela reclamou aos gritos, batendo no vidro. - Você bateu com minha cabeça na parede, eu podia ter morrido!

- Você está imunda. Sua roupa também. - Foi a resposta que ela obteve dele já estando ele distante.

Echo procurou outra garrafa, mas só encontrou garrafas vazias. Abriu a geladeira e achou uma lata de cerveja ainda intacta e o resto do que parecia ter sido um sanduíche, agora algo indefinido. Ele pegou os dois mesmo assim. Foi para a sala e sentou no sofá da sala. Acionou a holotelevisão, na imagem apareceu o já conhecido rosto de Hela Fairchild.

“- A corporação anti-incêndio fora aciona para o complexo industrial da Quantic Dreams, aonde ocorreram varias explosões de causa ainda não identificada. Por sorte não havia praticamente nenhum funcionário no interior da empresa. Os poucos que estavam, não sofreram nenhum ferimento mais grave. Acredita-se que um problema na geração de energia tenha causado um curto-circuito de alta intensidade...”

- Que saco! - A melodiosa voz dela fora interrompida, quando Echo trocou de canal. Um desenho animado tomou o lugar de Hela na projeção holográfica. - Agora melhorou. - Falou com um sorriso, abrindo a cerveja.

Comeu o sanduíche rapidamente e virou toda a cerveja com poucos goles, amassou a lata e a arremessou pra algum lugar da sala sem se preocupar se iria atingir alguma outra coisa. Passou as costas da mão sobre a boca.

O interfone tocou.

- O que é? - Ele atendeu. - Senhor Echo? - Veio a resposta da imagem de um homem loiro usando óculos e um terno.

- Fala logo o que quer...

- Tenho uma proposta para um trabalho.

A porta abriu. O homem entrou, estava segurando uma maleta na mão direita. Estava muito bem vestido, para aquela área da cidade.

- Senhor Echo?

A porta fechou e o homem viu uma faca com microfilamento de plasma aparecer encostada no seu pescoço, seguida de um homem com uma expressão de quem está muito sério.

- Pode falar, se eu não gostar do que vou ouvir sua cabeça vai se separar de seu pescoço.

O homem não esboçou reação e ficou imóvel. Parecia alguém muito confiante ou alguém que não se importava em perder a vida.

- Tenho uma proposta que é adequada a suas habilidades. Um serviço que entendo não será um dos mais complicados para o senhor. Basta eliminar um homem. Minha organização ficará muito satisfeita com o serviço. Receberá um bom valor em recompensa.

Os dois estavam imóveis na mesma posição como se estivessem sido petrificados de alguma maneira.

- E o que lhe faz imaginar que estou interessado? - A voz seca.

O homem sorriu.

- Tem tido pesadelos recorrentes?

Echo exitou. Como ele sabia disso?

- Minha organização sabe que tem. Podemos resolver isso também... Vou deixar aqui nesta maleta os dados necessários. Também tem um cubo de créditos com um valor adiantado. Elimine o alvo que está nesta pasta e receberá o resto do pagamento e a solução para o fim dos pesadelos. Nós entraremos em contato ao termino do serviço.

- Abra a maleta lentamente.

Echo fez um movimento com sua mão livre apontando para baixo.

Ele abriu usando as duas mãos, acionando as travas de código da maleta. A faca ainda em uma distancia mortal em seu pescoço.

- Mostre o que tem dentro.

Ele atendeu, girando a mala aberta e Echo pode ver que tinha apenas um envelope e o cubo de crédito.

- Tire da maleta o cubo. - Ele fez e Echo o pegou usando a mão livre, guardando em um bolso da calça. - Agora o envelope. - Ele o levantou e Echo pegou o envelope enfiando na calça. - Agora feche a maleta e saia.

O homem desconhecido fechou a maleta e caminhou em direção a porta, abrindo a mesma. Echo empurrou o homem para fora fechando a porta em seguida. Checou no interfone se o homem ainda estava lá, mas ele já havia desaparecido. Ele puxou o envelope, examinou o mesmo que parecia bastante comum e sentou no sofá.

- Parece interessante – Pensou. - Mas vou ver isso depois. - Jogou o envelope de lado no sofá e continuou assistindo a holotelevisão, rindo do desenho.

Charlotte apareceu toda molhada, enrolada em uma toalha saindo do banheiro, parecendo que estava sentindo uma grande dor de cabeça.

- Isso aqui... Está uma imundice, Echo.- Fez uma pausa colocando as mãos na cabeça. - Estava falando com alguém?

Ele não olhou para ela, ainda estava se divertindo com o que estava assistindo.

- Não era ninguém importante...

E deu risada novamente.

 

 

( continua )

 

 

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  • Guest - Karlos Junior

    Que será que tem no envelope? Não percam os próximos capítulos deee.....rsrsrs Bem legal o ponto de partida desta nova aventura, vamos acompanhando o desenrolar da trama, espero que supere o conto anterior 'O Recebimento de Kara'. Abraços!! :)

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  • Guest - Martok

    Onde está a continuação desse conto? Tá devendo hein!!!

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  • Pois é. Escrever por inspiração faz com que apareça esses problemas... :D A coisa demora... Acho que estou precisando de uma musa.

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  • Eu sei bem como é. Também não arrumei inspiração para continuar os contos que reescrevem o Star Trek novo. Mais uma coisa, cuidado, pois dependendo da musa você acaba não conseguindo escrever mais. hehehehehehhe Um abraço e vê se aparece mais.

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